A inevitável política

A inevitável política

maio 16, 2019 0 Por heliodefaria

A sociedade está despertando para a política. Finalmente está descobrindo que todos nós somos políticos, até quando queremos ficar longe da política. A omissão é uma atitude política. Votar em branco é uma ação política. Falar mal de políticos é um ato político. Não querer falar de política também é um ato político. Tudo é política, mesmo quando não queremos que seja.

A política nos envolve e nos sufoca praticamente desde que nascemos. E termina sendo algo inescapável. Assim como a morte e o nascimento, a política é uma das poucas questões inevitáveis na vida. Podemos até evitar a vida em sociedade, mas nunca nos livraremos da política. Pois ao nos livrarmos da vida em sociedade estamos mandando uma mensagem política. Ela é como uma sina que nos persegue. E nem adianta desligar o noticiário quando o volume de informações políticas ultrapassa o necessário e se torna uma pregação fundamentalista.

É assim que devemos encarar a política, como algo que inunda todos os espaços sociais e a vida humana. A partir de certa idade, antes mesmo da maioridade eleitoral, a política já se faz presente em nossa vida. Tanto de uma forma passiva, quando usamos os serviços públicos, quanto ativamente, ao expressarmos nossas opiniões ou nos omitirmos.

A distribuição dos resultados da política é desigual, pois retrata um sistema social e político doente. A desigualdade na distribuição reflete o poder das corporações, herança das Ordenações Manuelinas e dos interesses específicos sobrepujando o interesse geral. O processo eleitoral também é deturpado pelo abuso do poder econômico e sindical, pela superexposição de interesses particulares. O abandono da política nos traz uma perversa ressaca que denigre, reduz e destrói o interesse comum.

Todos os malfeitos descobertos pelo mensalão e pela Operação Lava Jato revelam o abandono da política e a indisposição que tais fatos causaram. A corrupção exacerbada retirou recursos da sociedade, direcionou esforços para obras desnecessárias, enriqueceu indevidamente uns e outros e, o pior de tudo, tirou a vitalidade econômica da Nação.

Concluo dizendo que não pretendo criar uma teleologia ou narrativa de que apenas a participação vá, de forma inevitável, resultar em melhores políticas. Mas, certamente, poderá representar a possibilidade de termos melhores políticas. O que é um passo adiante da situação em que vivemos. Sempre vale a pena lembrar Platão: “A punição que os bons sofrem quando se recusam a agir é viver sob o governo dos maus”.

Murillo de Aragão